sabato, gennaio 20, 2007

Despedida

Senhoras e senhores...

Meninos e meninas...

É com grande tristeza que venho tornar público meu contentamento em deixar essa plataforma virtual e adentrar mares ainda não navegados (fala sério, detesto esse linguajar...)

Puzé, mudei pro wordpress e estou num novo endereço: http://poetamatematico.wordpress.com. Todos os posts, comentários e ainda comentários extras meus sobre meu último post estão lá neste novo endereço. Os links serão atualizados em breve, basta eu ter um pouco mais de tempo.

Então, fui...

*************************************

Ah, ia esquecendo, a convite de uma pessoa muito querida, fui convidado a falar sobre

AS CINCO COISAS QUE ME DEIXAM FELIZ

1- Perfume da mulher amada (Sim, eu não presto atenção nos cheiros, mas esse em especial dá um caldo danado).

2- Ter grandes projetos pra seguir (Sim, eu sou um idealista convicto, e daí? Não gostou? Olha que eu te meto um Molotov na cueca (rsrsrs))

3- Poder ficar um mês sem fazer a barba (Ah, nada como não fazer a barba um mês inteiro. Serve pra me lembrar de meu espírito animal, mesmo eu sendo qse imberbe...)

4- Coçar o pé quando tá coçando (Não é uma agonia danada quando a gente quer fazer uma coisa e não pode? Coçar o pé então é o que há!)

5- Música de primeira (É, música dá um grande alívio pra alma, uma maravilha...)


Ah, sim, agora tengo de escolher cinco felizardos pra continuar a brincadeira. E eu escolho:

1- Marla
2- Ellemos
3- Mary
4- Bela
5- Sandra

domenica, gennaio 14, 2007

Peça-Poema sem Nome

Então, eu tenho trabalhado nos ultimos dias em terminar essa peça enorme que eu escrevi.

Ela é composta por três personagens e um coro que se inter-relacionam. Resolvi postá-la toda pois acho que assim todos poderão ver as mudanças que fiz no texto original. Boa leitura e espero contribuiçoes para melhorar o texto...

Até...

***********************************



O cenário representa uma sala, ambientada nos anos 40. Existe um pequeno rádio que toca músicas da época sobre uma estante. Existe um sofá sobre o qual a personagem Joana está sentada, lendo uma revista e bem próxima duma cadeira. No lado menos iluminado do palco existe uma cama de casal. Ouvem se passos e Amélia entra.

JOANA
Boa tarde, de onde vens?
Dizei das novidades da vida
Palavras de compensação
Das faltas dos nossos dias

AMÉLIA
Joana, como estás?
Boas novas? Ilusão...
É a guerra com sua mão
Que nos entrega ao cadafalso
É a morte que nos corrói
É o ódio que nos preenche
É o Sangue que Enaltece
E as pernas desobedecem.
O pensamento descompassado
Nas medidas intrincadas do coração...

JOANA
Não me diga minha cunhada
Não fale de guerra, de ilusão
Morte, sangue, destruição
Os homens e seus destinos
Seus sentimentos ferinos
Me deixam na solidão
A lembrar de meu marido
Meu doce e amado Lino
Que foi deitar-se no chão
Rasteja agora na guerra
Com o focinho na terra
Cavoucando com a mão
E batendo continência
Pra Sua Excelência
Usá-lo como lição...

AMÉLIA
Ah! Os homens e seus sabres...
Quanto de bom neles falta?
Falta lucidez que limpa a alma
Falta amor que liberta dos males...

Uma breve pausa. Amélia levanta-se e anda pelo cenário, aturdida. Bruscamente pára e olha para Júlia, que a observa curiosa...

AMÉLIA
Falando de amores e homens
Falando de dores e guerras
Que tiram a paz da Terra
E de tudo de bom que some
Tenho até esperança
E uma velada lembrança
Ao vir-lhe aqui falar...
É que meu coração pede
A alma aqui dentro remexe
Não tem jeito de parar
Eu venho me segurando
Com muito custo tentando
Até me faltar o ar
Se a minha boca se cala
Mil dias de minha andada
Parecem se acabar

JOANA
Diga-me bem depressa
Que grande coisa é essa
Que ousa te atormentar
Diga-me, destemida
Pois nem que me corte um dedo
Deixar-te-ei agonizar
Libere o teu coração
Tua cunhada, com correção
Haverá de te escutar...

Tocando Joana nos ombros

AMÉLIA
Cunhada, eu tenho medo
Sei que é um grande pecado
O segredo bem guardado
Que tenho no fundo do quarto
Que minha mente deixou guardar
Mas a dor é tamanha
Que o coração espanta
A mente que quer calar...
Digo envergonhada
Mas, finalmente descansada
Que o meu grande pecado
É ousar te amar...

Joana se desvencilha de Amélia

JOANA
Que assunto é esse que falais?
De onde tiras tamanhos despautérios?
Até parece que falas sério
Agora que me interpelais...
Como podes dizer tais coisas
Com tamanho descaro
Sabendo que lhe guard
oSentimentos fraternais?
Tu és irmã de meu marido
E falando disso comigo
É a seu irmão que trais...

AMÉLIA
Não me culpe por amá-la
Meu amor é tão estranho
Tentei fazê-lo bucólico
Mas eu não pude mais...
Guardei tal sentimento
Desde o primeiro momento
Que te vi nos cafezais...
E quando meu irmão Lino
Jurou te amor eterno
Em cima daquele altar
Não via outra maneira
De viver nessa peleja
Que não fosse me matar...
E quando estava com a faca
Caçando minha veia vital
Em pé, no espaldar...
Lembrei que não é pecado
Ousar ter-te amado
Pecado era me matar...
E quando ele foi à guerra
Como os homens desta terra
Aprender a atirar,
Foi o meu coração
Que me traiu a razão
E me obrigou a declarar
O amor que lhe tenho tido
E o desejo que tinha contido
De querer te beijar...

Amélia tenta beijar Joana, que se desvencilha e foge para o quarto. Amélia a segue e a encurrala sobre a cama

JOANA
Saia de perto de mim
Se continuas assim
Me obrigas a gritar

Amélia sobe na cama e fica bem próxima de Joana que se encolhe na cabeceira...

AMÉLIA
Eu podia ficar calada,
Podia sonhar calada,
Podia viver calada,
Sozinha, te amar...
Mas vejo nos seus olhos,
Seus brilhos majestosos
Que não seria a única a me calar!

JOANA
Não diga todas essas coisas...
Como podes saber o que é amor?
Amor existe um apenas, uma dor
Uma dor profunda e louca
Que destrói as barreiras da existência
E que desafia toda inteligência...
Que só se explica com a ignorância...
Que só admite incoerência
E que só entendem os amantes

AMÉLIA
Amor é uma perdição
Uma doença, maldição,
Uma fagulha que bate no peito
Que não me deixa agir direito
Que me segura a razão
Amor é remissão, é vida
É morte que reviva
Que sente bem o coração
É a vil humanidade
Remida na mesma insanidade
Desde que o primeiro homem amou
E se isso é lícito aos homens
Que lutam por seus nomes
Em guerras, mortes e horror...
Que dirá de duas mulheres
Que ardem nessa espera
Que nossa sina deixou...

JOANA
Não continue assim...

AMÉLIA
Continuo e continuarei
Pois sei que o ósculo
Que agora te darei
Te mostrará minha paixão!!

Amélia e Joana se beijam apaixonadamente, sobre a cama

AMÉLIA
Vê?
É minha alma apaixonada
Que deseja sua alma desterrada
Que agora perdeu o chão...

JOANA
Vejo!
É o chão que se esvai
É a lágrima que rola e cai
É o peito que bate descompassado
Em ritmo de um soneto apaixonado
Recitado e cantado em corais
É a peça metalingüada
A sede que segue chorada
Amada com sede e mais!!!

AMÉLIA
Mulheres e suas lágrimas
Em festas e carnavais
Em sonhos e pesadelos
Amando, com dores e medos
Mas amando sempre e mais...

Joana chora sobre o colo de Amélia, mas sorri, ambas recostadas na cabeceira

JOANA
Tua boca me aprisiona
Tua respiração me controla
Tua vontade me guia
Teu sorriso me distrai
Teu colo me refresca
Meu corpo se contrai
Teu corpo me atrai
Teu seio me excita
Minha alma também grita
Frágil, sozinha, delicada e muito mais...

outro beijo...

Enquanto Joana e Amélia se beijam, repentinamente Lino aparece. Sua roupa de tenente está toda espatifada e ensangüentada. Seu rosto está arroxeado e ele treme o tempo inteiro como se estivesse com muito frio. A perna direita se arrasta pelo chão e o braço esquerdo está envolto numa tipóia. O objetivo da maquiagem é dar um tom fantasmagórico ao personagem. A entrada pode ser com uma música fúnebre e luzes podem realçar esse caráter.

Tranqüilamente ele recita, como numa missa:

LINO
Eis que venho das distantes terras de Itália
Eis que vi os ventos frios e macabros da morte
Eis que ousei duelar seguidamente com a sorte
Eis que voltei para amar minha doce Joana

AMÉLIA
Lino!

JOANA
Lino!

LINO
Não me tocais, mulheres, não o façam
Estou marcado com o laço da extinção
A febre maculosa da destruição,
O sopro fedorento do desespero!
Não me tocais mulheres, não o façam,
Minha humanidade pereceu ante o desastre
Minha poesia tornou-se uma insólita catarse
Da vida, da morte e do amor!

Lino!

Lino!

LINO
A inspiração me vem nessa malfadada hora
E em meu coração uma lágrima triste rola
Absorta no desesperador desconhecimento...

E da inspiração velada
Minh’alma antes calada
Grita o brado do desassossego
Grita o velho e maldito canto
Que de nada perdeu o encanto
Grita, assim nesses termos:

Logo após essa introdução, Lino declama o poema épico Assim Dizem os Generais:

LINO
Assim dizem os Generais, Poema Épico

A arma que segurou o monge beneditino
Naquela inútil guerra constantinoplina
É a mesma arma, armada, calada e surda
Que sempre dizem os generais

Aquela torpe arma silente e bela
Aquele torpor belo da morte
Aqueles devaneios incidentes e bravios
Aqueles malditos desesperos breves
São os mesmos de que dizem os Generais

A canção final do moribundo
O canto císnico e cínico da madrugada
Ao frio tremor do sopro da morte
É o mesmo frio de que falam os generais

E falam com sua boca imunda
E soltam mil despautérios cultos
E mandam mil almas taciturnas
A cada hora para a morte
A cada hora para os campos
A cada hora para os sinos
A cada hora pras igrejas
A cada hora pros cemitérios
A cada hora pras cerimônias
A cada hora pros funerais
A cada hora pras fogueiras
A cada hora para o amor

Ah! Silenciosa melodia dos canhões
São os mais ignorantes que a percebem
Como percebem o som das espadas
E das tripas sanguinolentas caindo pelos campos
Campos semeados de trigo e volúpia,
Campos semeados de amor e terror...

São os generais que nos mandam
Invadir vilas, incendiar casas,
Igrejas, plantações, fazendas, hospitais...

São os generais que nos mandam
Invadir, estuprar, currar, violentar,
Amarrar, amordaçar, macular, mulheres.

São os generais que nos mandam
Envenenar...
Envenenar...
Envenenar...

Maldições mil lhes caiam sobre os ombros
Caia a desgraça sobre suas descendência
Desgraça suja o sangue limpo dos Generais

Depois disso ele silencia. Joana, lacrimenjante

JOANA
Meu amor, meu amor
Te esperei cada momento
Guardei cada lamento
Assim como você me falou
Guardei tuas canções
Teus beijos e declarações
Seu olhar sincero e sedutor
Guardei abraços e miudezas
Pois sei que nessas sutilezas
Repousa o verdadeiro amor!

Ela, lentamente se ajoelha aos pés de Lino e termina essas palavras a chorar, sobre as suas botas. Ele continua silencioso. O olhar parado no vazio não tem significado.

AMÉLIA
Irmão, é tão bom que voltas
Ainda que ferido e triste
Vejo pelas palavras que soltas
Que não reconheço muito de ti

Amélia abraça o irmão, que continua imóvel, apenas o tremor continua...

AMÉLIA
Sinto tanto frio em ti, irmão
Um frio que sai do corpo
E gela agora minha mão
A minha espinha, nuca,
Gela até o coração
Diga ao menos uma palavra
Uma palavra velada
Que será sossego a tua irmã...

Silenciosamente, Lino toma Joana, a levanta e a beija, demoradamente. Um beijo seco, frio, sem sentimento. E, ao fim do beijo, uma lágrima rola pela face dele, enquanto continua o silêncio. Joana se desvencilha dele, arfante.

JOANA
Quem é você que me beijas
Seu beijo sem hálito, sem gosto
Sua alegria fingida, sem gozo
Só vem me desesperar
Que houve com os sentimentos
Os belos e bons momentos
Em que vivias a me amar?

Enquanto Joana dizia essas palavras, Lino anda lenta e ruidosamente pelo palco, em ritmo cadenciado, de costas para Joana. Ao fim das palavras, ele vira-se bruscamente e diz com fúria:

LINO
Amor? O que sabes de amar?
O que sabes de declarações?
O que sabes de poesias e canções?
O que sabes? Dizei-me!

Diz isso segurando Joana fortemente pelos braços e a olhando com fúria.

LINO
Nunca me amastes, em nenhum momento
Minhas poesias eram para ti um capricho
Sempre me tratastes como bicho
Jamais ligaste pro que bate em meu peito

Tu e todas as mulheres
Com seus desejos e rimas pobres
Ditando o que é o amor aos homens

Tu e todas as mulheres
Criaram os poetas, sonhadores
Guiaram nossos desejos profundos
Para que morrêssemos nas guerras
Sendo mandados por generais

Tu e todas as mulheres
Criaram as carnificinas
Foram coniventes com a sina
Que assola os mortais

Tu nunca me deste um minuto
De amor eterno e incondicional
Nem me reservaste um olhar
De candura que não fosse carnal

Eis o que sou pra ti
Um joguete nas tuas mãos
Como todos os românticos
Estou condenado a morrer!
Só, sem que entendas
A dor que me faz sofrer
Meus sonhos belos e lânguidos,
Só queres minha sedução.

Ele a empurra para a cama. Amélia tenta contê-lo, mas ele a empurra com fúria e violência, fazendo-a cair no chão.
Deitado sobre ela, ofegante, o rosto colado ao dela, ele diz:

LINO
Não tenho mais tempo.
Sabes o que desejo
E que é meu direito
Não podes me negar

JOANA
E sua irmã, Lino!

LINO
(Falando a Amélia) Se te incomodas, vá á rua
Siga a vida e a canção da morte
E quando vier o fim dos dias
E pudermos fugir dos nossos pesadelos
Poderemos dividir nossos pecados
Palavras que não se dizem com os dedos

JOANA(choro convulsivo)
Eu não posso mais, não posso
Meu coração é uma mancha dolorosa
Por vergonha de admitir que o amor de outrora
É uma pequena dor que continua
Pois agora é outra a paixão
É outro o dono de meus pensamentos

Ódio, o rosto de Lino se enche de um ódio profundo e exacerbado. As palavras não são mais faladas, mas cuspidas, ele é a personificação da Guerra, da Fúria, do fim dos valores morais da sociedade. Enquanto vítima, Lino não tem consciência de que as causas de todos esses sentimentos são externas. Porém, ao saber que fora traído ele mostra-se verdadeiro, em contraposição ao antigo Lino, guardião de qualidades morais irretocáveis

A música explode em efervescência, para combinar com o ódio. A iluminação e a preparação devem servir para que a platéia tenha consciência de toda essa energia destrutiva

LINO
Maldita seja você e tua ascendência
Desde o princípio dos tempos
Que todos queimem no inferno
Pela tua grande falta para comigo.
Tu me jurastes amor eterno e então
Quando não posso amá-la,
Quando me mato pelos meus pares
Vens e se apaixona por outro!

Ele se aproxima cada vez mais, ameaçador e doloroso

Mulheres, perdição que irrompe
Da dúvida de nossas próprias fraquezas
Se nos damos todos de nós
Ao amor, à inexistência de mim
É com isso que nos pagam

Traído, traído
Traído pela minha inocência em servir
Traído por te dar um futuro melhor
Traído por perecer pela mão dos homens

Ó Céu, escuta-me
Escuta meu canto de morte
Escuta o lamento do Homem
Deus, Deus
A tua criação que lhe implora
Leva-me com tua mão embora
Leva-me para o cadafalso
Leva-me para o repouso derradeiro
Onde eu possa destilar meu amor e minha vergonha

Ele chora, tremendo desesperado. A força que fez para as palavras saírem é tamanha que todo ele se tornou pequeno. Seguem-se segundos de silêncio onde os três choram e se recuperam da força da cena.

Amélia se aproxima do irmão e põe o rosto dele entre suas mãos

AMÉLIA
Chora, treme e fica
Sente a dor do amor perdido
Sinto nas mãos o sangue da tua lágrima
Que rola intumescida em mim.
Meu coração se esquiva de te falar
Meus lábios não dizem o que sinto
Apenas a lembrança de teu sorriso
Me cativa o coração e me faz querer mais
Cantar a canção da ressurreição
Das prendas efusivas de minha alma
Ó Glória de que vivem os homens
Ó sangue inutilmente vertido
Porque não se remedia isso com as mãos
E a cabeça esfriada pela razão.
Não.
É preciso mais do que a inexistência
Pra compreender o mecanismo da eternidade

Lino!
Se me choras com tudo que tens
Se me choras com tua humanidade
Se me choras, mostrando tua fraqueza
Mostrando o que é verdadeiro de ti
É porque no fim das dúvidas resta
Apenas a dor inimaginável de ser
Antes de existir como homem

Eu quero morrer também
Eu quero morrer por amar o impossível
Ser um barco contra a correnteza
Nadando contra as forças do mundo

Ela se afasta dele e pega nas mãos de Joana, que ainda chora

Se existe um motivo para dor, sou eu
Sou eu quem deixa de existir
Sou eu quem contempla daqui o crepúsculo dos dias
Pra terminar na eternidade por tudo o que há

Vira-se para Lino

Sou eu o amor correspondido de tua mulher

A dor se transforma em ódio. Transtornado, Lino avança na direção de Amélia e a estapeia, soca, espanca. Ela sangra mas não chora, não grita, agüenta silenciosa seu suplício

Enquanto isso, um coro declama o seguinte poema-canção

CORO
O Suplício de Amélia

Amélia, Amélia
Dura no suplício de amor
Vibra no escuro da estrada
O fim que se mostrou revelador

Amélia, Amélia
Sangue inocente no véu
Esquecido na cadência da alma
Impoluto tesouro do céu

Amélia, Amélia
Destino tornou-te mulher
E erra no caminho tortuoso
Não sabe o bem que se quer

E termina o suspiro dos anjos
Entronado na página escura
Dias e dias de luta
Complicados na terra dos sonhos

Amélia, Amélia
Inspira o mudar dos tempos
Vértice errado do triângulo
Traída por seus sentimentos

E assim termina-se Amélia
Vai voar com os novos querubins
Seu sangue purificador
Dá e mostra metade de mim

Explicação: o suplício de Amélia é redentor. Ela se redime de seus pecados através de sua morte. Seu silêncio é o aceite de seu destino. O silêncio de Joana é a confusão dos sentimentos de seu tempo, enquanto mulher. Matar Amélia é um direito sagrado de Lino. Direito de expiar a dor...

Lino continua, enquanto há canção. Está exausto, suado, suas mãos sangram pelo esforço e contempla o sangue da irmã

silêncio duradouro

Enfim ele pára e avança para Joana, rasgando suas roupas até deixá-la nua. Ele a estupra ofegante e ela continua silenciosa. A cena é forte e sádica. Joana se entrega submissa.

CORO
O Estupro de Joana

Quando as facas cortarem o cimento
E machucam bem mais do que quer o momento
E a dor englobar, ensinando o sofrimento
E Joana chorar de terror por saber seu tormento
Estuprada que está por viver o amor proibido
Seu algoz não podia deixar de ser seu marido

E Joana se entrega e irrompe submissa
Faz do leito sagrado que tem a falsa premissa
De ficar e parir o futuro: vem da barriga

E Joana arrepende-se de tudo absurda
Não pode mais ficar muda

Joana solta um grito e canta

JOANA
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!
A dor é maior que o coração
E segura seu pasto na vida absurda

CORO
Lá vai a visão do futuro
Lá vai a cor, mostrando a figura
Dos templos que cadentes param no ar
Beija-flores de concreto e vitrais suspensos no Tempo

JOANA (ainda sendo estuprada)
Quebrem-se as amarras de mim
Não mereço ter esse fim

Ela, nua, se desvencilha de Lino e corre para o criado mudo, onde pega uma pequena faca.

JOANA
E se for a bruma a flor que escuta o devenir
E se eu choro tanto, é que choro pra partir
E se parto tanto é por medo de seguir
E se a faca sangra é que sangue é de mim
E se eu te escuto, escutasse mesmo assim...

Quando é de perto se partisse mais de mim
É que nas andanças das palavras proferir
Que dor é essa que eu sinto, sem direito de sentir
Que dor é essa que eu sinto, ao vê-la partir
Que espera mais insólita do fim que há de vir
É que minhas mãos têm sangue mesmo assim

Joana acerta a faca no abdome de Lino, que agoniza

CORO
Glória!
Glória!
Bradem por todos os portões!
Glória!
Glória!
O homem se acaba nas suas lamentações

LINO
Céu, eterno céu dos guardiões
Livra-me da dor da traição
Amada minha que me tirastes o sorriso
Leva-me na nau pelo rio dos mortos
Em busca do derradeiro alento
Nas mãos de Hades, descansarei...

Ele dá um suspiro profundo de dor

LINO
Morte, chama que acaba
Leva-me para a fantasia romântica
De um mundo mais humano
Onde a dor, ilusão efêmera
Seja reduzida a pó.

Falando para Joana

LINO
Perdão, perdão
Onde há dúvida que haja certeza
Nunca fui teu, eu sei agora
Agora que descanso de meus devaneios

Lino cai morto

CORO
Glória!
Glória!
Bradem por todos os portões!
Glória!
Glória!
O homem se acaba nas suas lamentações

Explicação: A nudez de Joana é o aceite de sua remissão e sua paga. O estupro é direito de Lino, na expiação de sua traição, mesmo que tenha sido um beijo. Joana, enquanto mulher tem de aceitar seu destino, nua e submissa, devido ao machismo e o patriarcalismo. Porém, enquanto sofre, Joana toma consciência do absurdo de sua situação. Assassinar o esposo é fazer justiça pela morte de Amélia e por seu próprio estupro. É um sinal da mudança dos tempos e da luta contra o machismo e a Guerra.

Silêncio breve, Joana levanta-se da cama e declama para Amélia, também morta, tomando-a nos braços

JOANA
Verdade

Se for morrer
Que seja pra morrer de Amor
Se for chorar
Arranca do peito o clarão


Se for lembrar
Se lembre do brilho do Santo
Se for o solo
Que seja mais belo um tanto

Se for o véu
Que seja da vagem semente
Enterrada no sonho da gente
Daquele que é dele e meu

Samaritano, Jacinto Noturno, Urbano
Pedaço e regaço de fel
Intermitente, coluna do corpo, corrente
Secando o sangue de Zeus

(fecham-se as cortinas)

********************************************

MOTIVAÇÃO

A história passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Os três personagens fazem parte do ambiente rural, predominante durante esses anos, sofrendo as influências do Estado Novo de Vargas. O mundo muda numa velocidade vertiginosa e a razão, antes linear e tênue se transforma num amontoado intrincado de relações de poder que sacodem o mundo e ficam cada vez mais profundas, culminando nos dias de hoje. Esse ambiente macro é o pano de fundo para uma série de conflitos internos que fazem parte desse tempo e influenciarão as gerações futuras. De certo modo, as relações entre os indivíduos de hoje são uma repetição das paradoxais relações entre os personagens com seus tempos conflituosos. A efervescência da guerra é apenas um catalisador de todo esse emaranhado sociológico e a razão por trás dos gestos sentimentalmente interessantes dos personagens.

Um triângulo amoroso invertido é escandaloso, porém revelador. Quando se pensa nos personagens como parte de um pensamento maior e mais intrincado é que se pode concluir que na verdade tudo faz parte de relações micro e macro.

Joana é mulher dessa época e sente em si o peso de uma relação patriarcal levada a extremos. Casou-se com Lino por conveniência, embora pensasse que era amor. Sua dúvida com seus sentimentos contraditórios é a personificação das mudanças que passam as relações das mulheres com seu tempo. Ela é uma representante social e, portanto, seus sentimentos tomam medidas exageradas. Ela passa de uma preocupação ingênua com a própria existência para a exigência de seu corpo por felicidade e realização sentimental. Embora não haja elementos suficientes para supor que ela amava Amélia, sua entrega é na verdade uma reação a toda uma situação social patriarcal. Amar é ser livre, nesse sentido. E ser livre é uma pressão que ela exige de si por fatores externos que ela não compreende com toda a sua plenitude.

Já o amor de Amélia é o mais insincero. Ela é mais jovem que Lino e se revolta contra sua sociedade patriarcal. Lino tem muito mais. É mais livre, mais solto, tem um mundo maior de possibilidades. A Amélia resta casar-se e viver limitada por seu marido. Seu lesbianismo é uma expressão de negação de sua própria sexualidade, um desejo de ser masculino, ou seja, livre, de acordo com sua visão. O desejo de ser Lino é tão forte que Amélia deseja ter tudo que é seu, inclusive sua esposa, a quem ele devota todo seu coração.

Lino é uma negação de sua condição de homem. Seus sentimentos antes da guerra eram nobres, cálidos, femininos. Isso era um gerador de conflitos internos. O amor dele a Joana é sincero e completamente entregue. Amar pra ele é sagrado, uma parte de si. Quando ele vai pra guerra, literalmente para ser Homem, é que ele se vê obrigado a agir contra esses conflitos. Aprender a matar, a morrer, em nome de sentimentos como patriotismo, honra e glória é um batismo de sangue em seu novo mundo patriarcal. Porém, como contrabalanço a isso, seus sentimentos nobres, humanos, afloram nele e seu arrependimento o consome. Quando ele volta para seu mundo, sua esposa, sua realidade rural e bucólica, está confuso entre a força de macho, suas pulsões e seus sentimentos verdadeiros de bom homem. Estuprar sua esposa é ao mesmo tempo exigir seu amor e liberar sua natureza. Sentir-se traído é pior ainda, pois ambos os mundos (o do amor e o da guerra) se destroem. Ele vira a personificação do patriarcalismo, embora não tenha consciência disso...