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Chuva



Tarde fria, o vento leva pequenas folhas e pedaços de papel pela rua. É sinal de chuva. Todos os cidadãos de Brasília sabem reconhecer a chuva quando ela vem. A gente espera tanto, faz tantos planos pra depois da chuva. Ela é uma redenção, como um batismo anual que chega pra nos lembrar que podemos ser melhores.

E é com tanta força que a gente a espera. Existem os sinais de que ela está chegando: o cheiro, o ar mais pesado, a umidade que muda. Mas o mais importante deles é a florada dos ipês. Tem o roxo, o amarelo, o branco. Quando eles terminam de florir, como que por milagre, lá do oeste vem uma onda cinzenta, barulhenta com seus relâmpagos a beijar os transeuntes.

E todos se escondem, nas lojas, nos bares, nos shoppings, mas não praguejam. Eles ficam admirando as gotas, sentindo os cheiros, tendo o gosto adocicado da poeira molhada que se fixa. É quase como uma simbiose: dá pra ouvir os barulhos das sementes se abrindo sob a terra e se elevando para os céus.

E era um dia desses, depois de uma longa seca de cortar a garganta e fazer chorar que ele ficou preso no engarrafamento. Mas os cidadãos de Brasília não buzinam nos engarrafamentos, ainda mais na primeira chuva depois da grande seca. Eles ficam olhando admirados pra cada gota como se fosse a última das chuvas.

E ele agüentou cada um dos cinqüenta minutos parado naquele caos. Todos agüentaram, como cúmplices daquela maravilha. E depois todos engataram a quinta marcha e andaram pelas avenidas largas indo pra suas casas.

E ele entrou em mais um daqueles prédios de cimento, subiu o elevador, desabotoou o colarinho, abriu a porta e estranhou a escuridão.

Ligou a luz e viu um grande papel sobre a mesa escrito

DESLIGA A LUZ E SIGA AS VELAS.

Ele ainda não tinha visto as velas. Homens são todos iguais. Desligou a luz e foi seguindo cada um dos pequenos fachos de luz ondulante na escuridão, ouvindo o barulho da chuva e morto de curiosidade. Uma a uma, ele se divertiu apagando cada uma delas.

Os homens com o tempo aprendem a ter paciência. Na porta do quarto ele parou e sentiu o cheiro maravilhoso das rosas misturado com a chuva. E pôde distinguir o ruído levemente adocicado e excitante da respiração contida.

E ele entrou de olhos fechados, aproveitou cada segundo. Tateou o caminho até a cama e sentiu a suavidade do lençol de cetim. Abriu os olhos e viu que ela não estava lá.

E viu a sombra vinda do banheiro.

Tirou as roupas, lentamente, enrolou-se com a toalha e entrou com o balde de champanhe na mão. Era ela, nua e sorrindo, como na primeira vez que se amaram.

Só teve tempo de murmurar: Eu te amo...

Vi um filme uma vez onde a menina colocou velas pra serem seguidas por seu amor...
Bom texto... vi tanto seu link em diversos blogs q não resisti e vim parar aqui.
Mas, um dia vi um comentário teu q me despertou maior atenção... bem, coisas do passado!

Bjinhos

O dia que eu tiver dinheiro eu compro aquelas velas cheirosinhas, ah, se compro!

Acho sempre estranhos estes anúncios, estes “algo vai acontecer”, esta chuva, mas vai acontecendo...Sei lá, não fitei relação direta da chuva com ele chegando em casa. depois pensei. por que diabos teria que ter uma relação. uai não tem mesmo.

Menino, ficou lindo demais!!! Hahahahaaha... e pensar que dei tanta gargalhada ontem por conta desse texto. Marido até veio ver o que estava acontecendo!

Que lindo Poeta!!!! Um dia pretendo conhecer a chuva de Brasilia, jah que eh assim tão mágica!!! Mto bonito mesmo...

Nobre Dama: Puzé, eu devo ter visot em algum filme também. Pelo visto a história não foi nada original. Obrigado pela visita. Beijos

Menina: E o Coyote que se cuide...

Rafael: Mas tem relação, hombre. A chuva se liga à fecundidade. E deu um clima especial para o começo da noite...

Mamy: Puzé, tu vive rindo de mim. Mas ficou bom mesmo. Graças à contribuição de vcs...

Renata: Mas não é qquer chuva. É a primeira depois da seca. As outras são normais...

O que a chuva faz às pessoas!
Eu também quero uma tarde dessas para mim!

um dia realizo seu desejo....

Que post maravilhoso!!!
Me fez morrrrer de saudade da 'terrinha'...

Adorei a descrição daquela que tanto nos faz falta... :))

Beijinhos!

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