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Reveillon - Parte I

Final de 2005, Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Noite fria, um mestre e seu discípulo empenham-se na meditação, nos últimos minutos do ano. No resto do mundo, boa parte da humanidade já comemorou o Ano-Novo e outros o aguardam ansiosamente. Ali, naquele lugar esquecido, o discípulo e o mestre se empenham em desenvolver seus sentidos.


– Porquê você acha que eu te chamei exatamente para esse lugar, exatamente nessa época do ano? – Diz o velho mestre.


– Não sei, sinto muita tranqüilidade vinda de todos os lados. O ano novo é uma época onde a humanidade se preocupa com a renovação, com o refazer e o re-significar. – Diz serenamente o discípulo, sabendo que essa é uma preparação para uma grande lição.


Ambos voltam ao silêncio. O mestre está sentado sobre uma pedra, olhando o horizonte. Ao longe se vê as luzes das cidades mais próximas e pode-se reconhecer o barulho característico dos foguetes. O discípulo se concentra em observar o mestre. Seu semblante sereno continua impassível apesar do frio e das várias horas na mesma posição. O velho mestre, com cabelos grisalhos e o bigode esquisitamente negro. Ao lado sua inseparável espada, necessária para o mestre andar, já que só tinha uma perna.

– Hoje faz 200 anos...


Parou para respirar e depois continuou:


– Em 31 de Dezembro de 1805, os cinco primeiros grandes mestres se encontraram nos arredores de Paris para jurar defender a paz com todas as suas forças. Isso aconteceu logo após a derrota de Napoleão em Trafalgar, na famosa batalha naval em que os ingleses conseguiram a supremacia sobre os mares. Os cinco grandes mestres formaram o conselho dos cinco generais que ainda hoje se reúne em situações de extremo perigo para a humanidade, com o intuito de defender a paz entre os homens. A última reunião do conselho foi em dezembro de 1945, logo após o fim da II Guerra Mundial, há 50 anos. Eu estava lá. Eu vi cada um dos cinco grandes mestres e senti seu grande poder. Eu ainda era jovem e meus mestres reconheciam meu grande talento, assim como reconhecem o seu hoje. Na época, ocupava o cargo de (...), e lutei em campos de batalha na Alemanha, na Polônia e na Tchecoslováquia, secretamente, com ordens diretas de Vargas, a partir de 1940. Enquanto isso, aqui no Brasil, meus mestres e discípulos se empenhavam numa grande batalha para que o Brasil entrasse na guerra, do lado dos aliados. Após o consentimento oficial de Vargas, lutei na Itália, em Monte Castelo, treinando soldados com minha experiência. Foi assim que, no fim de dezembro, eu estive no Conselho dos cinco generais, em Praga. O clima no conselho era terrível. Tinham fracassado prodigiosamente na tarefa de defender a paz. Haviam falhado em dois atentados contra Hitler e Mussolini e, como último recurso, tinham permitido a explosão da bomba atômica no Japão, como única forma de encerrar a guerra. Nos 150 anos das Ordens, mais de 80 milhões de vidas haviam sido perdidas e a paz estava cada vez mais distante. Um dos Generais, o prodigioso (...), se sentia particularmente culpado, pois achava que seus esforços pacifistas na Inglaterra após a I Guerra tinham permitido a ascensão de Hitler e do Nazismo, pois ele tinha silenciado muitas vozes anti-nazistas na Inglaterra com sua influência. Muitas acreditaram que aquele seria o último conselho e o fim das Ordens.


Ele respirou a ar da madrugada e continuou:


– Após essas coisas, fui a Japão, incumbido de reconstruir as cidades de Hiroshima e Nagazaki e estabelecer comunicação com os representantes da ordem que tinham sobrevivido (quase todos tinham sido executados pelo Imperador). Nos anos que estive em solo japonês aprendi muitas coisas com o sofrimento dos sobreviventes. Meu grande mestre, o honorável (...) voltou ao Japão para o projeto de reconstrução e me iniciou na Ordem do Dragão, a mais forte de todas. Aprendi muito em 46 e 47. As minhas maiores técnicas, o Sopro do Dragão e o Descanso do Monge, foram aperfeiçoadas nessa época. Depois disso recebi o título de (...) e recebi essa espada e o comando de um exército com mais de 60 mil homens espalhados pelo mundo. Em meados de 48, me despedi de meu mestre, para criar a Ordem do Guerreiro e abandonar pra sempre a Ordem do Dragão. Marchei a pé ou de carona por mais de 20 mil km, por toda a Ásia, através dos desertos chineses, do Himalaia, Ásia Central, União Soviética, Índia etc. Em 1950 me estabeleci em Israel e por lá fiquei por quase 15 anos, aperfeiçoando os princípios de minha ordem e lutando pela defesa da paz. Criei grupos de discussão entre israelenses e árabes e chefiei dezenas de iniciativas pela paz entre os dois povos. Meu grande sonho foi sempre conseguir um Estado em que israelenses e palestinos vivessem como irmãos, sob um mesmo governo, mas fracassei. Existem coisas que não podemos controlar, o ódio é uma delas. Em 64, um grupo de ultra-conservadores judeus cercou minha academia, que contava com judeus e árabes, e tentou matar a todos nós. Resistimos bravamente por seis horas, judeus e árabes lado a lado, com paus e pedras contra granadas e metralhadoras. No fim era apenas os nossos punhos e espadas contra o ódio. Porém, conseguiram invadir e incendiar a academia. Torturaram meus melhores discípulos, que corajosamente não disseram uma palavra, não deram um grito. Mataram quinze homens e estupraram oito mulheres, antes de degolá-las. Me pouparam apenas por ser brasileiro e da Ordem. Logo após fui expulso do país e vaguei por toda a Europa até 1970, quando meu mestre me convenceu a voltar ao Brasil após mais de 25 anos.


– Achava que finalmente encontraria a paz, ou pelo menos o sossego. Porém, me empenhei junto da Ordem da salvação de mais de 150 perseguidos políticos. A Igreja, no Rio e em todo Brasil escondia os perseguidos e nos incumbia de dar a eles novos nomes, endereços, notícias de parentes. Os tempos foram muito duros para todos nós e vi que mesmo no Brasil as coisas nunca seriam fáceis. Me mudei para Brasília em 1978, fundando minha nova academia em (...), tendo como meus discípulos (...), o grande (...), a famosa (...) e, meu maior discípulo, o honorável (...), entre muitos outros. Você entrou para a academia em 1990, com seis anos e está aqui comigo até hoje. Sempre encontrei muita força e serenidade em você. Diga-me, porquê te digo todas essas coisas?


O discípulo pensou bastante antes de responder...


– O senhor quer me convencer de que os tempos não mudam e que a defesa da paz é impossível?


Um sorriso estampou a face do mestre antes que ele dissesse:


– Não. Eu quis dizer que a vida de um homem é uma dádiva perpétua e que se ele a dedica a paz, mesmo que não a alcance terá vivido com sabedoria. Posso ter fracassado em Israel e disso eu me arrependo, mas hoje sei que a Ordem está mais forte do que nunca na defesa da paz. Está forte também por causa de pessoas como você. Eu tenho visto suas iniciativas pela (...), pelo desenvolvimento das lutas dos (...) e, principalmente na sua busca incessante de conhecimento, com o intuito de (...) no Brasil. Sei que muito do que você faz não é aprovado pelas ordens, mas lembre-se que muitos dos maiores graduados participaram de muitas guerras e se cegaram por isso. Apenas os que vivem em paz conseguem compreender o valor da paz na garantia da paz. Enquanto muitos se cegam pela justiça você abre os olhos para o amor. As Dádivas que Deus lhe deu são muito grandes e acredito no seu valor no presente e no futuro...


– Mestre, – diz o discípulo, visivelmente emocionado, pois jamais tinha ouvido tantos elogios daquele mestre taciturno – sei que existe uma razão muito mais profunda para estarmos aqui agora, mas não me atrevo a perguntar.


– Sim, você está certo. Existe muito mais coisa se saber. Essa pequena história foi apenas o começo...

Estou ansioso pela segunda parte. Adoro estas ficções conspiratórias!

Mestre vivido esse. Adoraria bater um lero com ele, gosto muito de ouvir as experiências de pessoas vividas. Aliás, gosto muito mais de ouvir do que de falar. Primeira lição que qualquer bom discípulo tem que aprender!

Beijones!

Nossa, muito interessante.

Gostei do mestre, também. Parece ter o mundo nos olhos.

Tem uma historia que ouvi na palestra de uma monja zen budista que eh mais ou menos assim.
Uma mulher lutou durante toda a vida pela paz. Esbravejava copiosamente, brigava, gritava contra os "injustos", organizava, tudo pela paz. Quando morreu se deparou no inferno e perguntou:
_ Como me mandam ao inferno. eu lutei pela minha vida toda pela paz!!
Eis que alguem responde:
_ Pela paz voce nao luta.So se pode ser pacifico pela paz.

That's a great story. Waiting for more. » » »

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