« Domestico | Aos Que Se Expõem » | Tardes Cariocas » | Moral » | Inferno.. » | Parte I (Finalizada) » | Uma Licença Prosaica Num Blog Poético » | Chuva de Ópio » | O Louco e o Furacão » | Medo » | Mães »

Parte II - Assim Dizem os Generais...

Observação:

Esse post faz parte da peça Triângulo, Peça Poema a Três Vozes. Para compreender a peça é
necessário ler a primeira parte.


Enquanto Joana e Amélia se beijam, repentinamente Lino aparece. Sua roupa de tenente está toda espatifada e ensangüentada. Seu rosto está muito arroxeado e ele treme o tempo inteiro como se estivesse com muito frio. A perna direita se arrasta pelo chão e o braço esquerdo está envolto numa tipóia. O objetivo da maquiagem é dar um tom fantasmagórico ao personagem. A entrada pode ser com uma música fúnebre e luzes podem realçar esse caráter.

(Tranqüilamente ele diz:)

Eis que venho das distantes terras de Itália
Eis que vi os ventos frios e macabros da morte
Eis que ousei duelar seguidamente com a sorte
Eis que voltei para amar minha doce Amélia


Lino!

Lino!

Não me tocais, mulheres, não o façam
Estou marcado com o laço da extinção
A febre maculosa da destruição,
O sopro fedorento do desespero!
Não me tocais mulheres, não o façam,
Minha humanidade pereceu ante o desastre
Minha poesia tornou-se uma insólita catarse
Da vida, da morte e do amor!


Lino!

Lino!

A inspiração me vem nessa malfadada hora
E em meu coração uma lágrima triste rola
Absorta no desesperador desconhecimento...

E da inspiração velada
Minh’alma antes calada
Grita o brado do desassossego
Grita o velho e maldito canto
Que de nada perdeu o encanto
Grita, assim nesses termos:

Logo após essa introdução, Lino declama o poema épico Assim Dizem os Generais:

Assim dizem os Generais, Poema Épico

A arma que segurou o monge beneditino
Naquela inútil guerra constantinoplina
É a mesma arma, armada, calada e surda
Que sempre dizem os generais

Aquela torpe arma silente e bela
Aquele torpor belo da morte
Aqueles devaneios incidentes e bravios
Aqueles malditos desesperos breves
São os mesmos de que dizem os Generais

A canção final do moribundo
O canto císnico e cínico da madrugada
Ao frio tremor do sopro da morte
É o mesmo frio de que falam os generais

E falam com sua boca imunda
E soltam mil despautérios cultos
E mandam mil almas taciturnas
A cada hora para a morte
A cada hora para os campos
A cada hora para os sinos
A cada hora pras igrejas
A cada hora pros cemitérios
A cada hora pras cerimônias
A cada hora pros funerais
A cada hora pras fogueiras
A cada hora para o amor

Ah! Silenciosa melodia dos canhões
São os mais ignorantes que a percebem
Como percebem o som das espadas
E das tripas sanguinolentas caindo pelos campos
Campos semeados de trigo e volúpia,
Campos semeados de amor e terror...

São os generais que nos mandam
Invadir vilas, incendiar casas,
Igrejas, plantações, fazendas, hospitais...

São os generais que nos mandam
Invadir, estuprar, currar, violentar,
Amarrar, amordaçar, macular, mulheres.

São os generais que nos mandam
Envenenar...
Envenenar...
Envenenar...

Maldições mil lhes caiam sobre os ombros
Caia a desgraça sobre suas descendência
Desgraça suja o sangue limpo dos Generais


Depois disso ele silencia. Joana, com lágrimas nos olhos diz

Meu amor, meu amor
Te esperei cada momento
Guardei cada lamento
Assim como você me falou
Guardei tuas canções
Teus beijos e declarações
Seu olhar sincero e sedutor
Guardei abraços e miudezas
Pois sei que nessas sutilezas
Repousa o verdadeiro amor!

Ela, lentamente se ajoelha aos pés de Lino e termina essas palavras a chorar, sobre as suas botas. Ele continua silencioso. O olhar parado no vazio não tem significado.

Irmão, é tão bom que voltas
Ainda que ferido e triste
Vejo pelas palavras que soltas
Que não reconheço muito de ti

Amélia abraça o irmão, que continua imóvel, apenas o tremor continua...

Sinto tanto frio em ti, irmão
Um frio que sai do corpo
E gela agora minha mão
A minha espinha, nuca,
Gela até o coração
Diga ao menos uma palavra
Uma palavra velada
Que será sossego a tua irmã...


Silenciosamente, Lino toma Joana, a levanta e a beija, demoradamente. Um beijo seco, frio, sem sentimento. E, ao fim do beijo, uma lágrima rola pela face dele, enquanto continua o silêncio. Joana se desvencilha dele, arfante.

Quem é você que me beijas
Seu beijo sem hálito, sem gosto
Sua alegria fingida, sem gozo
Só vem me desesperar
Que houve com os sentimentos
Os belos e bons momentos
Em que vivias a me amar?


Enquanto Joana dizia essas palavras, Lino anda lenta e ruidosamente pelo palco, em ritmo cadenciado, de costas para Joana. Ao fim das palavras, ele vira-se bruscamente e diz com fúria:

Amor? O que sabes de amar?
O que sabes de declarações?
O que sabes de poesias e canções?
O que sabes? Dizei-me!


Diz isso segurando Joana fortemente pelos braços e a olhando com fúria.

Nunca me amastes, em nenhum momento
Minhas poesias eram para ti um capricho
Sempre me tratastes como bicho
Jamais ligaste pro que bate em meu peito

Tu e todas as mulheres
Com seus desejos e rimas pobres
Ditando o que é o amor aos homens

Tu e todas as mulheres
Criaram os poetas, sonhadores
Guiaram nossos desejos profundos
Para que morrêssemos nas guerras
Sendo mandados por generais


Tu e todas as mulheres
Criaram as carnificinas
Foram coniventes com a sina
Que assola os mortais

Tu nunca me deste um minuto
De amor eterno e incondicional
Nem me reservaste um olhar
De candura que não fosse carnal

Eis o que sou pra ti
Um joguete nas tuas mãos
Como todos os românticos
Estou condenado a morrer!
Só, sem que entendas
A dor que me faz sofrer
Meus sonhos belos e lânguidos,
Só queres minha sedução.


Ele a empurra para a cama. Amélia tenta contê-lo, mas ele a empurra com fúria e violência, fazendo-a cair no chão.
Deitado sobre ela, ofegante, o rosto colado ao dela, ele diz:

Não tenho mais tempo.
Sabes o que desejo
E que é meu direito
Não podes me negar


Não faça isso, Lino!

A porta da rua é serventia da casa!

Eu não posso mais, não posso
Amo outra pessoa
Não amo mais você...

Reintegro meu comentário no início da trama. Álvares de Azedo todinho!

Olha... fiquei com pena do Lino. Muita pena.

E um tanto esquisito de fato. O título do último post (10/jan) poderia explicar bem porque evito que leiam-me as palavras. Namastê, moço!

Poxa, o Lino voltou tão traumatizado, que até falar mal da Mulher falou...

Também tenho pena dele.

Sem pena de Lino... a verdade é que a continuação está tão intensa e forte quanto o início... E então? Quem é o amor de Joana agora?

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. Plotters work Divorce guild legal order order discount topamax Bontril slow relese cap Topamax toxicity

Posta un commento