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Noite Punk

Há anos eu esperava ansiosamente. Há anos eu buscava a compreensão do amor, mas empacava nos meus preconceitos. Há anos eu não me sentia feliz assim. Há anos eu não me sentia completo. Há anos esperava mais do que o beijo, o sexo, a confidência, a massagem. Há anos eu esperava pela magia taciturna da noite. Há anos esperava o toque, a intimidade, o sorriso no escuro, essas coisas. Tantos anos, tantas noites, mas finalmente...

Ela ligou às cinco e disse que tinha conseguido arranjar uma desculpa e tava vindo. Será que a esperada noite tinha chegado? E agora? Arrumar tudo, o vinho, a música, as flores, as poesias. Tantos anos esperando e só agora eu ia pensar nisso? Não, era melhor deixar tudo como estava. O romance é bom, mas a intimidade é mais...

Deu seis horas, meu tio ainda tava em casa. Se ela chegasse e ele ainda estivesse lá melava tudo. Seis e quinze, ele foi embora. Seis e vinte ela liga: "Tô chegando, me espera". Apreensão. Era verdade mesmo, ela vinha. Só agora eu ia acreditar? Os poetas vivem mesmo no Mundo da Lua...

Seis e vinte e dois. Ela chegou, entrou apressada, escondida, mas entrou. Um beijo, tímido. Era hora de fazer o jantar. Arroz, feijão e linguiça. Não tinha mais nada na despensa (ai ai, assim fica difícil agradar). O arroz ficou duro, o feijão com gosto de pimenta do reino (não sabia que o tempero pronto tinha pimenta do reino) e a linguiça queimou. Putz...

Jantar a dois, sem velas, sem declarações. Apenas os olhos que se encontram, as carícias. As declarações de amor não vinham, como se atrapalhassem o momento. As palavras não vinham e quando vinham eram erráticas: Vc viu o jornal? Eu vou pra manifestação amanhã... E aquele amigo seu?

Depois do jantar o Jornal Nacional, as notícias. Tudo ia devagar, como se a eternidade fosse nossa. Outros beijos, tímidos, recatados, virginais. "Boa Noite", disse o apresentador. "Os cachorros precisam comer", digo eu. "Vai lá e tranca o portão" diz a Punk. Solto os cães, aquele alvoroço. Espero eles terminarem pre evitar conflitos. Enquanto isso penso nela...

Coloco água pra eles, tranco o portão e digo boa noite aos cães. Lentamente eu tranco a porta, entro na sala, escolho os CD's. O que ouvir? O que eu quero pra marcar esse momento? Maldição, os poetas sempre sabem embromar, mas nunca têm a resposta na hora que precisam. Ah, já sei, Janis Joplin, amor, volúpia, sentimentos. Vai ser Janis. Ligo o som, apago a luz e ando lentamente, descalço. Sumertiiiiime!!!

No quarto, sobre as cobertas, ela está lá, mais Punk do que nunca, meias e agasalho. Tão Punk que aceita o beijo, a língua, a pele. As roupas se vão, timidamente. Os movimentos são escolhidos, paulatinamente. O silêncio dos corpos, das bocas, das respirações, que domam o frio. Os tremores primeiros são substituídos por outros. Os beijos primeiros são substituídos por outros, em outros lugares, outras bocas, outros sentimentos. O calor esconde um entendimento mútuo e sagaz.

Então, como numa mágica, os corpos se fundem novamente, mas de uma maneira completamente nova. O ritmo reduzido pede para que seja eterno, o amálgama que une os corpos dos amantes, dois punks que se fundem no amor e que vivem para e pelo amor, pela compreensão do amor. Os sussurros e os gemidos se confundem. As declarações de amor aparecem, tímidas, enquanto os corpos tomam o controle. Enquanto desaparece o frio. Enquanto desaparece a dor...

E os tremores vêm, primeiro timidamente, depois indefinidos, vagos, depois fortes, depois tomam conta. Tudo vira tremor e do tremor vem a intimidade. Os corpos unidos conversam entre si, numa linguagem ininteligivel para os mortais. E, após tudo isso, a primeira carícia reaparece. É o beijo que silencia os sussurros e anuncia o primeiro fim. Anuncia que o tempo voltará a correr. Anuncia que as estrelas não caíram de verdade, mas só nos nossos corpos. Volta o som do Jornal da Globo na casa do vinzinho, o som dos cães e das noites...

Lá fora, Janis virou Cazuza e Cazuza canta Cartola. O mundo é um moinho mesmo. O Rock vira Samba e o Samba melancolia, mas uma melancolia boa, eterna. Eterna como a Punkitude da noite. Eterna e delicada como o amor. Amor que une os mortais. Amor que para o tempo e muda as horas. Amor eterno e invulgar. Amor de Punk, mas amor. Amor que toma toda a madrugada e permanece eterno nos amantes...

O que eu tenho dizer sobre Triângulo e Noite Punk? Freud explica! No aguardo da terceira parte pro comentário definitivo.

Embora você não forneça quase nada a respeito do background dos personagens, dá pra captar uma personalidade e uma história de vida bem forte em cada um deles. Eu diria pra você trabalhar um pouco mais as rimas e deixar o cenário um pouco mais representativo e menos denso, mas não quero me meter...

Êêê, Poeta! Amei a frase "romance é bom, mas a intimidade é mais...". Longa vida aos punks!

Nossa, ficou tão lindo, tão lindo, que qualquer coisa que eu diga é inútil.

União de sentido e momento. Poderoso.

Weber: Pode falar o que quiser, punk, estamos aqui pra ouvir. Logo após a terceira parte eu mando uma explicação detalhada de tudo que eu escrevi e porque eu escrevi

Mamy: Obrigado, intimidade é mais mesmo, vc não acha? Sei lá, romance me cansa...

Menina: Inútil? Menina, tudo que vc escreve toca a alma da gente. Queria ter uma casquinha do teu talento

Selph: Eu diria que foi quase um amálgama. Obrigado pelo comentário

E eu diria que o amor é algo tão inexplicável e a intimidade é algo que só o amor entende, e ainda diria que os punks amam com muito mais profundidade do que eu achava que eu já amei um dia...

fico ate sem graça de publicar algo.
mas confesso que lagrimas escorreram no fim... de alegria e orgulho.
obrigada!

Parabéns! òtimo texto! Chama a atenção e nos puxa pra dentro dele...

Eu gostei, achei bonito pois tem muito sentimento.
Porém eu sempre gosto mais dos textos em terceira pessoa, eles ficam mais literários!
Às vezes os de primeira pessoa ficam com um caráter muito "diário", então é preciso tomar cuidado com isso. Mas acho que num blog não é necessária tanta preocupação com puxar para o lado diário, pq um blog quase o é.
Se este fosse em terceira pessoa, posso estar enganada, mas acho que ficaria divino! :)
Mas de qualquer forma, muito bonito está...isso não importa tanto, porque o sentimento transmitido no texto é o que mais importa, e isso vc alcançou!
Beijos!

Best regards from NY!
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Keep up the good work »

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