martedì, gennaio 31, 2006

Tedio

Uma coisa engraçada e interessante que eu ja tinha notado ha muito tempo e' que os compositores daqui de Brasilia sempre falaram muito sobre Tedio. Em muitas cançoes, que vao desde Renato Russo a Plebe Rude, o tedio e uma coisa sempre presente. Acho que um reflexo do conturbado periodo da decada de 80, quando o mundo vivia grandes transformaçoes e aqui estava tudo se modificando devagar, paulatinamente. Nos anos 80 Brasilia tinha 20 e tantos anos, muito poucos perto das grandes cidades do mundo.

Ainda se via terra nas ruas, muitas quadras vazias (ate hj nao terminaram Brasilia, tem varias quadras que so tem gramados de futebol), muita gente velha e muita gente jovem, da primeira geraçao de nascidos aqui. Outros vinham pra ca de outras cidades e falavam, "que saco de cidade".

Mas, naquela epoca voce encontrava o embaixadores na rua ou na padaria, passava nas ruas principais e via chefes de estado, almoçava com os maiores politicos do pais, no mesmo lugar, ia no mesmo barbeiro do presidente. O pior que Brasilia ainda e' assim. Isso e' muito engraçado. Imagina, semana passada eu tava voltando da aula de nataçao, passando pela L4 norte e vejo um comboio da policia federal. Quem tava no carro do meio? O Paloci que tava indo pra CPI, com a janela aberta, o braço de fora. O carro dele quase me atropelou na faixa de pedestres (os carros oficiais sao os unicos que nao param) e o Paloci me cumprimentou por causa disso. Eu e o Paloci tivemos uma conversaçao nao verbal de uns centesimos de segundo. Eu acenei com os olhos, ele olhou pra mim , aqueles olhos expressivos de politico e foi embora.

Engraçado, eu passei o dia inteiro pensando no olhar do Paloci. Sei la, eu como poeta gosto muito desse negocio de olhar. Eu tento sempre ficar incognito e por isso em surpreendo quando eu sou notado. Sera que ele queria pedir desculpas pelo quase-atropelamento? Sera que ele queria uma força antes do depoimento da CPI? Sera que ele me olhou assim como quem nao ve, com o olhar perdido e distante? Provavelmente eu nunca vou saber.

Sei la, nessa horas a gente pensa que essas pessoas tambem sao gente como nos, com defeitos e dificuldades. Apesar de dicordar de certos aspectos chatos da politica economica eu penso que as pessoas tendem sempre a fazer o melhor que podem.

Agora, falem serio, uma cidade assim pode ser entendiante?
*************************************************************************
P.S.1: Desculpem o teclado desconfigurado, mas na facu eles usam uma versao muito antiga do Linux
P.S.2: Os comboios presidenciais e de ministros nao podem ser parados em hipotese alguma, mesmo nas faixas de pedestre. O problema e' que eles tinha de ter feito pelo menos algum barulho antes de eu pisar na faixa, ne'?

sabato, gennaio 28, 2006

Passarinho, Passarás, Passarei


Quebraste teu caminho quando desafiaste o furacão
E com ele dançaste no infinito, no teu sono perdido
Ao revés e anverso dos tempos e nuvens
Depois disso tudo perdeste teu chão

Voaste como um pássaro, errante a se espatifar na janela
Transparente e sincera, altiva qual meu beijo apaixonado
Metamorfose camuflada de mim mesmo em teu eu
Quadro impressionista, fato consumado, aquarela.

Voaste e ainda voas e me enamoro, vestial comparação
Escravidão voluntária, serviço militar, escola, internato
És musa, mas és tátil, concreta e intransponível: muralha
Borboleta titubeante a rolar pelo espaço, fogo do dragão.

Me encantas, cascavel ao bote preparar, armadilha!
Tenho pena de teu martírio, observo-te e admiro
Faço uma canção bonita, é tua vida, semifusa
Psicologia específica, velada maravilha!

Ainda sorris, como pode ser tão bonito?
Sorris tal criança a experimentar novo brinquedo
E danças, danças com o redemoinho e seu olho
Alice tupiniquim a recriar o velho mito.

Sou o coelho, tenho pressa. Tenho menos de um século
Sou passageiro na eternidade, fluo, sou, isso basta
E porque te vi por uma vez ao fim de teus dias
Sei que meus átomos existirão pra te roubar, último ósculo.

Eternidade.

mercoledì, gennaio 25, 2006

Para a Menina Prodigio...

Vinte e Cinco
Quadrado perfeito
Cinco vezes cinco
Um plural de cincos
Um par de cincos
Cincos iguais
Iguais em cinco
Iguais num circo
Circos vitais
Ciclos ideais
Clichês monumentais
Cinco cruzadas
Cinco Cruzados
Velhos, novos, reais
Jovens, idosos, ideais
Iguais, distintos, plurais.
É tudo cinco
E muito mais
E sou eu quem diz
Que essas riminhas vis
Sao só pra te deixar feliz...

lunedì, gennaio 23, 2006

Ave



Sou filho nascido da velocidade
Conheço o mundo através das minhas asas...
Sou o condor que plana pelos Andes
Incólume, vou errante contra o tempo
Atrás das linhas inimigas que me afligem.
Sou o senhor soberano das alturas
Conhecedor dos segredos ocultos dos céus
Maltrapilho cidadão do mundo dos ventos
Amigo das fadas e das ninfas celestiais!
Sou o sonhador que nunca acorda
O torcedor que sempre torce
O grito que ficou na sua garganta
Aquele que não soltastes no dia do seu triunfo
Aquele que carregas contigo acima de qualquer suspeita!
Sou o que tu levas no peito com carinho
O amor que tens guardado e não revelas
Sou a canção que sempre lembras
Sou teu medo do escuro, a amplidão
A flor que levas contigo, teu sorriso
Teu gozo, teu charme, teu gingado
Teu beijo, teu sonho, teu perfume
A bebida que adoras, teu ópio
Teu sangue, a gasolina de tua alma
O arrepio que tens na nuca, o sol.
Sou o prazer que não revelas
Aquilo que sentes e não sabes
Sou o capitão de teu barco pelo mundo.

Prazer, me chamo (Censurado).
Venha comigo conhecer a madrugada dos aflitos
E prometo que não te deixarei andar sozinha.

sabato, gennaio 21, 2006

Reveillon - Parte II

Essa é a terceira parte. Para compreender o texto é preciso ler a segunda e a primeira.


- Já parou pra pensar que talvez eu não queira perceber? - Diz o mestre

- Já, e isso não me conforta.

- Encerremos essa discussão. Ela não faz bem a ninguém. Deixemos a profecia nas sombras, de onde ela nunca devia ter saído.Você não quer ir ao Haiti, eu não vou te nem te pedir, mas sei que outros o farão. Sua presesença em Porto Príncipe é ímprescindível para a garantia da paz.

O mestre parou por uns instantes e olhou para o horizonte tristemente. Tinha passado muitos dias com seu querido discípulo e era hora de dizer adeus. Olhou fixamente para o jovem forte que ele tinha se tornado. Lembrou-se de suas palavras de sabedoria, que, às vezes, faziam ele pensar que era o discípulo e não o mestre. De certo modo foi sempre assim, o mestre sempre aprende mais com o díscipulo do que o contrário. E estava aprendendo muito com esse garoto, que hoje era o mestre da Ordem dos Anarquistas, mas que sempre seria seu discípulo fiel. Queria estar lá para ampará-lo, aconselhá-lo, mas o diabetes o tinha impedido de fazer muitas coisas. A amputação da perna foi particularmente cruel.

Ele respirou profundamente, passou a mão pela espada e disse, com muita dor:

- O assunto que nos trouxe aqui é muito mais prático do que discussões estúpidas sobre a Ordem ou a paz. Diga-me, o que você prevê para o próximo ano?

Aquela pergunta pegou o discípulo de surpresa. O mestre sempre soube que ele não era agraciado com a clarividência, como as monjas da Ordem do Véu. Ele tinha pensado muito sobre esse assunto nesses dias de aprendizado com o mestre. Agora, aos vinte e um anos, ele sabia que tinha um papel muito importante na Ordem e que suas decisões poderiam influenciar as vidas de milhares de pessoas. Como responder? Com a intuição? A boca deixou sair essas palavras, como se elas tivessem vida própria:

- Não vejo boas coisas mestre, em lugar nenhum. 2006 será mais difícil que 2005, tenho certeza...

- Sim, também vejo isso. O mundo não era tão dicotômico há muitos anos. Se Bush tivesse nos ouvido antes de 11 de setembro... - o mestre lembrou-se desse fato com ironia. Ele tinha um ressentimento profundo aos republicanos, desde a guerra - O caminho da paz está cada vez mais tortuoso e as desigualdades cada vez mais cruéis. Esse será um difícil ano. - Parou alguns instantes e perguntou sernamente ao discípulo: - Anarquista, onde repousa a paz?

- A paz repousa nos trigais que dançam ao vento. - disse o discípulo, sem pensar.

- Boa resposta, meu rapaz. A paz se move com o vento, modificando o curso da História. Você se tornou um grande mestre e enche de orgulho esse velho aleijado. - O mestre pegou a espada que estava ao seu lado e disse: - Proste-se, imediatamente.

O discípulo estva visivelmente emocionado. Não poderia ser. Essa era uma grande honra.

- Anarquista, de Brasília, herói e defensor da paz, membro honorável da Ordem e mestre dos Anarquistas, é com orgulho que lhe dou a Espada do Guerreiro. Use-a pra defender a paz, a liberdade e a democracia. Use-a para defender os fracos, os humilhados e injustiçados. Dê-lhes a Força, a Redenção e a Justiça. Com essa espada, ofereço também meu grande exército. Dê-lhes ensinamentos sábios, mas ensine-os com serenidade e ombridade. Ensine-os com fé e paciência que só assim lhe reconhecerão como grande mestre que és.

O discípulo chorava copiosamente, com os olhos colados ao mato húmido da chapada dos Guimarães. O mestre continuou:

- Dou-lhe agora o comando da Ordem do Guerreiro e do Exército dos Cem Mil soldados. Sei que você é um grande pacifista, mas mesmo eles precisam usar as armas quando não há outra escolha. Se a profecia cumprir-se, esteja antento, comande com disciplina e lute com honra que a espada jamais lhe deixará ser vencido. Confie no maravilhoso Exército dos Cem Mil soldados e guie-os como se fossem seu braço. Ele é uma arma poderosa, mas só se seu mestre tiver a sabedoria para malejá-lo. Em suas mãos eu deixo a paz ou a ruína de toda a ordem. De hoje em diante, ocuparpas o cargo de Magnífico (...), o terceiro maior cargo de toda a Ordem.

- Mestre...

- Não diga nada, deixe-me terminar. Só você pode se opor aos desmandos da Ordem do Dragão. Leve o equilíbrio, como eu sempre levei e, aconteça o que acontecer, esteja sempre do lado de sua consciência.

O mestre silenciou-sse e levantou, com um só pé. Ele emanava uma grande energia, que iluminava a noite. Essa energia multicolorida assustou o discípulo, que protegia os própios olhos.

- Preste atenção em cada movimento, pois só poderei fazer isso uma vez. Essa é a técnica do Guerreiro Incandescente, que aperfeiçoei nos últimos 40 anos.

A energia do mestre se concentrava, enquanto ao longe os fogos de artifício anunciavam o ano novo. O mestre concentrou todo seu poder e se transformou em luz, planando lentamente, subindo para o céu. Quando estava a uma grande altura, explodiu em luz, iluminando toda a Chapada.

O discípulo observou tudo isso emocionado. Levantou-se e continuou a contemplar o brilho que ainda tomava conta do céu. Depois veio o vazio e o desespero. Ele olhava para o brilho do céu que vinha das cidades próximas. Todos comemoravam o Ano Novo.

O Guerreiro Anarquista pegou a espada, enxugou as lágrimas e pôs-se a caminhar. Tinha de voltar a Brasília imediatamente para se preparar para a profecia e treinar o exército. O mal estava próximo, afinal. Ele sabia que nunca a paz dependeu tanto de uma pessoa. E essa pessoa era ele.

"Brasília me espere..."

venerdì, gennaio 20, 2006

Sou Eu, Não Acreditas?

A Vênus de Urbino
1538
Óleo Sobre Tela, 119 x 165 cm
Galleria degli Uffizi, Florença



Ei, fecha os olhos, bem devagar
Estou aqui, me sente
Meu hálito no teu pescoço, sente
Não, não olha, sente
Estou contigo, só tu que não me vês
Sente, é minha mão roçando agora tua nuca
É minha barba levemente em tua nuca
Não, não te assustes, quero-te bem
É minha mão sobre teu ombro
É minha mão sobre teu colo
Assusta-te porque não me vês?
Porque só acreditas no que vês?
Estou aqui, é um milagre, e te quero
Sinta a minha mão sobre tua barriga
Não acredite nos teus olhos, sou eu quem digo
É minha boca a se aproximar da tua
Não tenhas medo
É minha boca a ter a tua
É minha língua querendo a tua
Tua saliva me inebria
É meu peito que tu sentes com a mão
Estou nu, agora sentes, fiques também
Eu já lhe disse não quero o mal
São meus dentes a arranhar teu pescoço
Eles de novo a mordiscar seus seios
É minha língua penetrando tuas carnes
É tua mão a apertar a minha nuca
São teus lábios a suspirar bem lentamente
São teus seios mais endurecidos
É tua carne cada vez mais aquecida
É minha língua, não te deixarei
É tua boca me implorando que te deixes
É tua boca: oh!
É minha boca: não pararei!
É tua carne a se aquecer mais uma vez
É tua boca a procurar bem forte a minha
É tua mão a procurar minha carne
É minha carne a explorar a tua
E explora, e explora, e explora
É tua boca: oh!
É minha boca: não pararei!
É tua carne agora mais aquecida e mais úmida
Já não agüentas mas não me pedes pra parar
É o suspiro, o suspiro, o suspiro
É minha boca, junto da tua: oh!
Abres os olhos, ainda não me vês.
Era um sonho, eu te enganei...

mercoledì, gennaio 18, 2006

Chuva

Cai a chuva incessante no jardim
Reacendendo o instinto das flores
Que não morreram na última inundação
Que nos tomou até o fim das cores!
As paredes sobreviventes testemunham
Silenciosas contam histórias da idolatria
Que preparamos pensando em amor
Eterno, puro, profano e sem fim.

Vai, duradoura desumanidade
Que nos faz desejar o flagelo da destruição
Personificada na ânsia do possuir...
E eu, enfraquecido também te possuo
A cabeça desanuviada descansa no colo
Na ingratidão de eventos diurnos.
E ao entardecer te olho nos olhos
Falo mentiras e te quero de novo
Pra esquecer as facas que me matam
Pra esquecer um amor que só me deixa louco...

lunedì, gennaio 16, 2006

A Teoria dos Cachorros Assassinos

Parti a tua cria em dois tons do mesmo cinza
Calculei a tua força enquanto te cobria com a brisa
E te esperava com meus planos para enfrentar a maresia
Pois o meu ego te ensinou a nossa nova Teoria
Que o poeta português, sem emoção, recriaria!
Com cem virtudes desatou o nó que ainda existia
E no final te enlaçou e experimentou a bulimia
De te beijar enlouquecido na primeira hora do dia
E procurar o teu combate em cinco frentes de artilharia
Pra depois te esquecer e se entregar à nostalgia.
E no fim de tudo isso se esquecer da poesia
Trabalhar no cemitério limpando garras de harpia
Pois cortara as próprias asas ao não lutar pelo que cria
E enfim se despediu do nome seu num ritual de vã magia
Pra se entreter com a tão famigerada teoria
Que os canídeos o inspiraram na solidão de sua vida:
A Teoria dos Cachorros Assassinos.

domenica, gennaio 15, 2006

Reveillon - Parte II

Esta é a Parte II. Para compreeensão, é preciso ler a Parte I



– Antes de mais nada, eu preciso saber exatamente o que você andou fazendo nos últimos dez anos – disse o mestre.
– Nos últimos dez anos... – após uma pequena pausa ele continua – creio que o senhor já saiba de tudo, estive contigo na Ordem do Guerreiro até os 14 anos, depois um período na Ordem do Dragão, onde aprendi muito e, como você, criei minha própria ordem, a dos Anarquistas.
– Na verdade eu sei de muito mais. Sei do verdadeiro motivo de você e aquela menina entrarem para a Ordem do Dragão. A Luxúria é um caminho tortuoso, aprendiz.
– O objetivo não era a Luxúria, o senhor bem sabe. A Cópula é uma grande concentração de energia e uma síntese das trocas que comandam o desenvolvimento do universo. O estudo da Tranqüilidade é um requisito importante para o desenvolvimento da consciência. Eu e P. estávamos num período de intenso aprendizado.
– Aprendizado que quase lhe matou e a P., algumas vezes...
– Eu hoje compreendo isso melhor, mas não me arrependo. Eu tinha apenas quinze anos. Como o senhor queria que eu me portasse?
– Entendo rapaz, entendo. E os gêmeos, será que entendem? Eles deveriam viver com o pai, sob sua proteção, não fugidos pela Europa, como cães.
– Eu acredito que tudo isso tem um grande propósito. A profecia diz que...
– Não ouse tocar na profecia agora, não é o momento ­– diz o mestre com grande irritação.
Assustado, o discípulo calou-se.
– Sei que você a procurou por todo o Brasil e depois pela Europa. Colocou seus soldados atrás dela por anos.
– E ela soube exatamente como fugir...
– Sim, mas seu aprendizado deixou muitas conseqüências. Você exala uma força potencialmente erótica, que interfere diretamente nas suas decisões. Essa é uma fraqueza que precisa ser controlada...
– Sim, mestre.
O mestre calou-se por um instante. Logo após, disse serenamente:
– Pois bem, mas acredito muito em seu valor. Você é um dos melhores oficiais da Ordem. Sei do seu excelente trabalho. A Ordem dos Anarquistas é uma das mais eficientes. Sei de suas intervenções no Iraque, Afeganistão, Sul da Ásia (onde fui crucial no atendimento das vítimas do Tsunami e do terremoto do Paquistão) e no Brasil. Ao contrário de quase todas as Ordens, você não segue exércitos ou governos. Vai aos cidadãos levando a vida. Você é diretamente responsável pela vida de mais de 100 mil seres humanos. Essa é uma grande dádiva e um grande serviço aos princípios da Ordem.
– A Ordem dos Anarquistas foi fundada justamente com esse intuito: despolitizar a Ordem e descentralizar as nações. Não desejamos a paz a todos os seres humanos? Então porque respeitar fronteiras nacionais? Os grandes mestres têm fracassado em seu trabalho de convencer os governos da necessidade da paz, e muitos tomam decisões em beneficio próprio, principalmente na Ordem do Dragão.
– Quantos soldados você comanda?
Um sorriso estampou o rosto do discípulo. Ele sabia que o mestre sabia a resposta de cada uma das perguntas, mas mesmo assim as fazia. Deveria haver um motivo oculto em tudo isso.
– Bem, eu não comando soldado, descentralizo ações e decisões. Apenas ajudo na coordenação mundial e auxilio na decisão de agir, assim como todos os “soldados”. Ao todo somos 12 mil homens, espalhados por 18 países da Ásia e América Latina, principalmente no Brasil e Índia.
– Seu carisma conquistou 12 mil pessoas no mundo. Você sabe o que isso significa? Talvez você seja um dos mais valorosos de nossos oficiais. Apenas estou preocupado com algumas coisas...
O olhar de preocupação do mestre deixou o discípulo assustado. Era esse o grande motivo da viagem?
– A Ordem do Dragão quer usar seu carisma a seu favor. Eles acreditam que você lhes deve isso, por causa do aprendizado com P. Querem que você comande as forças da Ordem no Haiti.
O discípulo ficou visivelmente surpreso com isso.
– Mas o general Urano Bacelar, da Ordem do Dragão, tem feito um excelente trabalho, apesar das limitações...
– Bacelar não tem muito tempo de vida.
Essa declaração deixou o discípulo atônito.
– Como assim? Vão matá-lo?
– Você sabe que a Ordem do Dragão não trabalha assim. Ele vai se matar. É questão de dias, talvez horas.
Silenciam-se os dois. Após isso, o discípulo diz:
– Não contava com isso. Não pretendia entrar no Haiti, nem comandar soldados como se fossem cães. Não sou general de exército regular. Como posso ser um comandante militar?
– Querem de você um papel estratégico, que entre nas guerrilhas e as destrua uma a uma, com os conhecimentos das técnicas do Sopro do Dragão e do Descanso do Monge. Querem que você mate os líderes das guerrilhas e estabeleça a paz. Em particular, querem que você seduza e mate a comandante (...), partidária de Aristide, usando seus métodos pouco convencionais.
– Eu não posso fazer isso – disse o discípulo, desesperado.
– Serão ordens do próprio presidente Lula. Ele sabe dos seus esforços pela paz. Ele foi convencido pelos ministros (...), (...) e pelo general (...) de que ninguém mais pode conseguir uma paz rápida e duradoura no Haiti. Ele conta com você para evitar mais mortes.
– Seria uma traição aos princípios da Ordem dos Anarquistas. Meus amigos não me perdoariam – as lágrimas caíam dos olhos do discípulo.
– Eu não queria ir pra Europa na II Guerra. Fui obrigado por Vargas. Fiz muitas coisas que não queria fazer. Espero que Prestes tenha me perdoado pelo que fui obrigado a fazer com Olga. Estava convencido que, naquelas circunstâncias, a paz não seria alcançada de outra forma. Eu tive a chance de matar Hitler em 1939, quando tinha a sua idade, mas não o fiz. Seis milhões morreram por causa de minha fraqueza. Seu país está em guerra pela paz, embora não apareça no Jornal Nacional, pense nisso.
O discípulo silenciou-se. Depois de uma longa reflexão, ele disse:
– Estou preocupado com outra coisa. Um pensamento nefasto acabou de me passar pela cabeça. – parou, olhou para o mestre e disse com firmeza – A profecia está para cumprir-se. A Ordem do Dragão quer evitar isso a todo custo.
– De novo a profecia. Você não percebe que...
– Desculpe mestre, mas acho que é o senhor que não percebe...

Continua...

sabato, gennaio 14, 2006

Reveillon - Parte I

Final de 2005, Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Noite fria, um mestre e seu discípulo empenham-se na meditação, nos últimos minutos do ano. No resto do mundo, boa parte da humanidade já comemorou o Ano-Novo e outros o aguardam ansiosamente. Ali, naquele lugar esquecido, o discípulo e o mestre se empenham em desenvolver seus sentidos.


– Porquê você acha que eu te chamei exatamente para esse lugar, exatamente nessa época do ano? – Diz o velho mestre.


– Não sei, sinto muita tranqüilidade vinda de todos os lados. O ano novo é uma época onde a humanidade se preocupa com a renovação, com o refazer e o re-significar. – Diz serenamente o discípulo, sabendo que essa é uma preparação para uma grande lição.


Ambos voltam ao silêncio. O mestre está sentado sobre uma pedra, olhando o horizonte. Ao longe se vê as luzes das cidades mais próximas e pode-se reconhecer o barulho característico dos foguetes. O discípulo se concentra em observar o mestre. Seu semblante sereno continua impassível apesar do frio e das várias horas na mesma posição. O velho mestre, com cabelos grisalhos e o bigode esquisitamente negro. Ao lado sua inseparável espada, necessária para o mestre andar, já que só tinha uma perna.

– Hoje faz 200 anos...


Parou para respirar e depois continuou:


– Em 31 de Dezembro de 1805, os cinco primeiros grandes mestres se encontraram nos arredores de Paris para jurar defender a paz com todas as suas forças. Isso aconteceu logo após a derrota de Napoleão em Trafalgar, na famosa batalha naval em que os ingleses conseguiram a supremacia sobre os mares. Os cinco grandes mestres formaram o conselho dos cinco generais que ainda hoje se reúne em situações de extremo perigo para a humanidade, com o intuito de defender a paz entre os homens. A última reunião do conselho foi em dezembro de 1945, logo após o fim da II Guerra Mundial, há 50 anos. Eu estava lá. Eu vi cada um dos cinco grandes mestres e senti seu grande poder. Eu ainda era jovem e meus mestres reconheciam meu grande talento, assim como reconhecem o seu hoje. Na época, ocupava o cargo de (...), e lutei em campos de batalha na Alemanha, na Polônia e na Tchecoslováquia, secretamente, com ordens diretas de Vargas, a partir de 1940. Enquanto isso, aqui no Brasil, meus mestres e discípulos se empenhavam numa grande batalha para que o Brasil entrasse na guerra, do lado dos aliados. Após o consentimento oficial de Vargas, lutei na Itália, em Monte Castelo, treinando soldados com minha experiência. Foi assim que, no fim de dezembro, eu estive no Conselho dos cinco generais, em Praga. O clima no conselho era terrível. Tinham fracassado prodigiosamente na tarefa de defender a paz. Haviam falhado em dois atentados contra Hitler e Mussolini e, como último recurso, tinham permitido a explosão da bomba atômica no Japão, como única forma de encerrar a guerra. Nos 150 anos das Ordens, mais de 80 milhões de vidas haviam sido perdidas e a paz estava cada vez mais distante. Um dos Generais, o prodigioso (...), se sentia particularmente culpado, pois achava que seus esforços pacifistas na Inglaterra após a I Guerra tinham permitido a ascensão de Hitler e do Nazismo, pois ele tinha silenciado muitas vozes anti-nazistas na Inglaterra com sua influência. Muitas acreditaram que aquele seria o último conselho e o fim das Ordens.


Ele respirou a ar da madrugada e continuou:


– Após essas coisas, fui a Japão, incumbido de reconstruir as cidades de Hiroshima e Nagazaki e estabelecer comunicação com os representantes da ordem que tinham sobrevivido (quase todos tinham sido executados pelo Imperador). Nos anos que estive em solo japonês aprendi muitas coisas com o sofrimento dos sobreviventes. Meu grande mestre, o honorável (...) voltou ao Japão para o projeto de reconstrução e me iniciou na Ordem do Dragão, a mais forte de todas. Aprendi muito em 46 e 47. As minhas maiores técnicas, o Sopro do Dragão e o Descanso do Monge, foram aperfeiçoadas nessa época. Depois disso recebi o título de (...) e recebi essa espada e o comando de um exército com mais de 60 mil homens espalhados pelo mundo. Em meados de 48, me despedi de meu mestre, para criar a Ordem do Guerreiro e abandonar pra sempre a Ordem do Dragão. Marchei a pé ou de carona por mais de 20 mil km, por toda a Ásia, através dos desertos chineses, do Himalaia, Ásia Central, União Soviética, Índia etc. Em 1950 me estabeleci em Israel e por lá fiquei por quase 15 anos, aperfeiçoando os princípios de minha ordem e lutando pela defesa da paz. Criei grupos de discussão entre israelenses e árabes e chefiei dezenas de iniciativas pela paz entre os dois povos. Meu grande sonho foi sempre conseguir um Estado em que israelenses e palestinos vivessem como irmãos, sob um mesmo governo, mas fracassei. Existem coisas que não podemos controlar, o ódio é uma delas. Em 64, um grupo de ultra-conservadores judeus cercou minha academia, que contava com judeus e árabes, e tentou matar a todos nós. Resistimos bravamente por seis horas, judeus e árabes lado a lado, com paus e pedras contra granadas e metralhadoras. No fim era apenas os nossos punhos e espadas contra o ódio. Porém, conseguiram invadir e incendiar a academia. Torturaram meus melhores discípulos, que corajosamente não disseram uma palavra, não deram um grito. Mataram quinze homens e estupraram oito mulheres, antes de degolá-las. Me pouparam apenas por ser brasileiro e da Ordem. Logo após fui expulso do país e vaguei por toda a Europa até 1970, quando meu mestre me convenceu a voltar ao Brasil após mais de 25 anos.


– Achava que finalmente encontraria a paz, ou pelo menos o sossego. Porém, me empenhei junto da Ordem da salvação de mais de 150 perseguidos políticos. A Igreja, no Rio e em todo Brasil escondia os perseguidos e nos incumbia de dar a eles novos nomes, endereços, notícias de parentes. Os tempos foram muito duros para todos nós e vi que mesmo no Brasil as coisas nunca seriam fáceis. Me mudei para Brasília em 1978, fundando minha nova academia em (...), tendo como meus discípulos (...), o grande (...), a famosa (...) e, meu maior discípulo, o honorável (...), entre muitos outros. Você entrou para a academia em 1990, com seis anos e está aqui comigo até hoje. Sempre encontrei muita força e serenidade em você. Diga-me, porquê te digo todas essas coisas?


O discípulo pensou bastante antes de responder...


– O senhor quer me convencer de que os tempos não mudam e que a defesa da paz é impossível?


Um sorriso estampou a face do mestre antes que ele dissesse:


– Não. Eu quis dizer que a vida de um homem é uma dádiva perpétua e que se ele a dedica a paz, mesmo que não a alcance terá vivido com sabedoria. Posso ter fracassado em Israel e disso eu me arrependo, mas hoje sei que a Ordem está mais forte do que nunca na defesa da paz. Está forte também por causa de pessoas como você. Eu tenho visto suas iniciativas pela (...), pelo desenvolvimento das lutas dos (...) e, principalmente na sua busca incessante de conhecimento, com o intuito de (...) no Brasil. Sei que muito do que você faz não é aprovado pelas ordens, mas lembre-se que muitos dos maiores graduados participaram de muitas guerras e se cegaram por isso. Apenas os que vivem em paz conseguem compreender o valor da paz na garantia da paz. Enquanto muitos se cegam pela justiça você abre os olhos para o amor. As Dádivas que Deus lhe deu são muito grandes e acredito no seu valor no presente e no futuro...


– Mestre, – diz o discípulo, visivelmente emocionado, pois jamais tinha ouvido tantos elogios daquele mestre taciturno – sei que existe uma razão muito mais profunda para estarmos aqui agora, mas não me atrevo a perguntar.


– Sim, você está certo. Existe muito mais coisa se saber. Essa pequena história foi apenas o começo...

venerdì, gennaio 13, 2006

Noite Punk

Há anos eu esperava ansiosamente. Há anos eu buscava a compreensão do amor, mas empacava nos meus preconceitos. Há anos eu não me sentia feliz assim. Há anos eu não me sentia completo. Há anos esperava mais do que o beijo, o sexo, a confidência, a massagem. Há anos eu esperava pela magia taciturna da noite. Há anos esperava o toque, a intimidade, o sorriso no escuro, essas coisas. Tantos anos, tantas noites, mas finalmente...

Ela ligou às cinco e disse que tinha conseguido arranjar uma desculpa e tava vindo. Será que a esperada noite tinha chegado? E agora? Arrumar tudo, o vinho, a música, as flores, as poesias. Tantos anos esperando e só agora eu ia pensar nisso? Não, era melhor deixar tudo como estava. O romance é bom, mas a intimidade é mais...

Deu seis horas, meu tio ainda tava em casa. Se ela chegasse e ele ainda estivesse lá melava tudo. Seis e quinze, ele foi embora. Seis e vinte ela liga: "Tô chegando, me espera". Apreensão. Era verdade mesmo, ela vinha. Só agora eu ia acreditar? Os poetas vivem mesmo no Mundo da Lua...

Seis e vinte e dois. Ela chegou, entrou apressada, escondida, mas entrou. Um beijo, tímido. Era hora de fazer o jantar. Arroz, feijão e linguiça. Não tinha mais nada na despensa (ai ai, assim fica difícil agradar). O arroz ficou duro, o feijão com gosto de pimenta do reino (não sabia que o tempero pronto tinha pimenta do reino) e a linguiça queimou. Putz...

Jantar a dois, sem velas, sem declarações. Apenas os olhos que se encontram, as carícias. As declarações de amor não vinham, como se atrapalhassem o momento. As palavras não vinham e quando vinham eram erráticas: Vc viu o jornal? Eu vou pra manifestação amanhã... E aquele amigo seu?

Depois do jantar o Jornal Nacional, as notícias. Tudo ia devagar, como se a eternidade fosse nossa. Outros beijos, tímidos, recatados, virginais. "Boa Noite", disse o apresentador. "Os cachorros precisam comer", digo eu. "Vai lá e tranca o portão" diz a Punk. Solto os cães, aquele alvoroço. Espero eles terminarem pre evitar conflitos. Enquanto isso penso nela...

Coloco água pra eles, tranco o portão e digo boa noite aos cães. Lentamente eu tranco a porta, entro na sala, escolho os CD's. O que ouvir? O que eu quero pra marcar esse momento? Maldição, os poetas sempre sabem embromar, mas nunca têm a resposta na hora que precisam. Ah, já sei, Janis Joplin, amor, volúpia, sentimentos. Vai ser Janis. Ligo o som, apago a luz e ando lentamente, descalço. Sumertiiiiime!!!

No quarto, sobre as cobertas, ela está lá, mais Punk do que nunca, meias e agasalho. Tão Punk que aceita o beijo, a língua, a pele. As roupas se vão, timidamente. Os movimentos são escolhidos, paulatinamente. O silêncio dos corpos, das bocas, das respirações, que domam o frio. Os tremores primeiros são substituídos por outros. Os beijos primeiros são substituídos por outros, em outros lugares, outras bocas, outros sentimentos. O calor esconde um entendimento mútuo e sagaz.

Então, como numa mágica, os corpos se fundem novamente, mas de uma maneira completamente nova. O ritmo reduzido pede para que seja eterno, o amálgama que une os corpos dos amantes, dois punks que se fundem no amor e que vivem para e pelo amor, pela compreensão do amor. Os sussurros e os gemidos se confundem. As declarações de amor aparecem, tímidas, enquanto os corpos tomam o controle. Enquanto desaparece o frio. Enquanto desaparece a dor...

E os tremores vêm, primeiro timidamente, depois indefinidos, vagos, depois fortes, depois tomam conta. Tudo vira tremor e do tremor vem a intimidade. Os corpos unidos conversam entre si, numa linguagem ininteligivel para os mortais. E, após tudo isso, a primeira carícia reaparece. É o beijo que silencia os sussurros e anuncia o primeiro fim. Anuncia que o tempo voltará a correr. Anuncia que as estrelas não caíram de verdade, mas só nos nossos corpos. Volta o som do Jornal da Globo na casa do vinzinho, o som dos cães e das noites...

Lá fora, Janis virou Cazuza e Cazuza canta Cartola. O mundo é um moinho mesmo. O Rock vira Samba e o Samba melancolia, mas uma melancolia boa, eterna. Eterna como a Punkitude da noite. Eterna e delicada como o amor. Amor que une os mortais. Amor que para o tempo e muda as horas. Amor eterno e invulgar. Amor de Punk, mas amor. Amor que toma toda a madrugada e permanece eterno nos amantes...

mercoledì, gennaio 11, 2006

Parte II - Assim Dizem os Generais...

Observação:

Esse post faz parte da peça Triângulo, Peça Poema a Três Vozes. Para compreender a peça é
necessário ler a primeira parte.


Enquanto Joana e Amélia se beijam, repentinamente Lino aparece. Sua roupa de tenente está toda espatifada e ensangüentada. Seu rosto está muito arroxeado e ele treme o tempo inteiro como se estivesse com muito frio. A perna direita se arrasta pelo chão e o braço esquerdo está envolto numa tipóia. O objetivo da maquiagem é dar um tom fantasmagórico ao personagem. A entrada pode ser com uma música fúnebre e luzes podem realçar esse caráter.

(Tranqüilamente ele diz:)

Eis que venho das distantes terras de Itália
Eis que vi os ventos frios e macabros da morte
Eis que ousei duelar seguidamente com a sorte
Eis que voltei para amar minha doce Amélia


Lino!

Lino!

Não me tocais, mulheres, não o façam
Estou marcado com o laço da extinção
A febre maculosa da destruição,
O sopro fedorento do desespero!
Não me tocais mulheres, não o façam,
Minha humanidade pereceu ante o desastre
Minha poesia tornou-se uma insólita catarse
Da vida, da morte e do amor!


Lino!

Lino!

A inspiração me vem nessa malfadada hora
E em meu coração uma lágrima triste rola
Absorta no desesperador desconhecimento...

E da inspiração velada
Minh’alma antes calada
Grita o brado do desassossego
Grita o velho e maldito canto
Que de nada perdeu o encanto
Grita, assim nesses termos:

Logo após essa introdução, Lino declama o poema épico Assim Dizem os Generais:

Assim dizem os Generais, Poema Épico

A arma que segurou o monge beneditino
Naquela inútil guerra constantinoplina
É a mesma arma, armada, calada e surda
Que sempre dizem os generais

Aquela torpe arma silente e bela
Aquele torpor belo da morte
Aqueles devaneios incidentes e bravios
Aqueles malditos desesperos breves
São os mesmos de que dizem os Generais

A canção final do moribundo
O canto císnico e cínico da madrugada
Ao frio tremor do sopro da morte
É o mesmo frio de que falam os generais

E falam com sua boca imunda
E soltam mil despautérios cultos
E mandam mil almas taciturnas
A cada hora para a morte
A cada hora para os campos
A cada hora para os sinos
A cada hora pras igrejas
A cada hora pros cemitérios
A cada hora pras cerimônias
A cada hora pros funerais
A cada hora pras fogueiras
A cada hora para o amor

Ah! Silenciosa melodia dos canhões
São os mais ignorantes que a percebem
Como percebem o som das espadas
E das tripas sanguinolentas caindo pelos campos
Campos semeados de trigo e volúpia,
Campos semeados de amor e terror...

São os generais que nos mandam
Invadir vilas, incendiar casas,
Igrejas, plantações, fazendas, hospitais...

São os generais que nos mandam
Invadir, estuprar, currar, violentar,
Amarrar, amordaçar, macular, mulheres.

São os generais que nos mandam
Envenenar...
Envenenar...
Envenenar...

Maldições mil lhes caiam sobre os ombros
Caia a desgraça sobre suas descendência
Desgraça suja o sangue limpo dos Generais


Depois disso ele silencia. Joana, com lágrimas nos olhos diz

Meu amor, meu amor
Te esperei cada momento
Guardei cada lamento
Assim como você me falou
Guardei tuas canções
Teus beijos e declarações
Seu olhar sincero e sedutor
Guardei abraços e miudezas
Pois sei que nessas sutilezas
Repousa o verdadeiro amor!

Ela, lentamente se ajoelha aos pés de Lino e termina essas palavras a chorar, sobre as suas botas. Ele continua silencioso. O olhar parado no vazio não tem significado.

Irmão, é tão bom que voltas
Ainda que ferido e triste
Vejo pelas palavras que soltas
Que não reconheço muito de ti

Amélia abraça o irmão, que continua imóvel, apenas o tremor continua...

Sinto tanto frio em ti, irmão
Um frio que sai do corpo
E gela agora minha mão
A minha espinha, nuca,
Gela até o coração
Diga ao menos uma palavra
Uma palavra velada
Que será sossego a tua irmã...


Silenciosamente, Lino toma Joana, a levanta e a beija, demoradamente. Um beijo seco, frio, sem sentimento. E, ao fim do beijo, uma lágrima rola pela face dele, enquanto continua o silêncio. Joana se desvencilha dele, arfante.

Quem é você que me beijas
Seu beijo sem hálito, sem gosto
Sua alegria fingida, sem gozo
Só vem me desesperar
Que houve com os sentimentos
Os belos e bons momentos
Em que vivias a me amar?


Enquanto Joana dizia essas palavras, Lino anda lenta e ruidosamente pelo palco, em ritmo cadenciado, de costas para Joana. Ao fim das palavras, ele vira-se bruscamente e diz com fúria:

Amor? O que sabes de amar?
O que sabes de declarações?
O que sabes de poesias e canções?
O que sabes? Dizei-me!


Diz isso segurando Joana fortemente pelos braços e a olhando com fúria.

Nunca me amastes, em nenhum momento
Minhas poesias eram para ti um capricho
Sempre me tratastes como bicho
Jamais ligaste pro que bate em meu peito

Tu e todas as mulheres
Com seus desejos e rimas pobres
Ditando o que é o amor aos homens

Tu e todas as mulheres
Criaram os poetas, sonhadores
Guiaram nossos desejos profundos
Para que morrêssemos nas guerras
Sendo mandados por generais


Tu e todas as mulheres
Criaram as carnificinas
Foram coniventes com a sina
Que assola os mortais

Tu nunca me deste um minuto
De amor eterno e incondicional
Nem me reservaste um olhar
De candura que não fosse carnal

Eis o que sou pra ti
Um joguete nas tuas mãos
Como todos os românticos
Estou condenado a morrer!
Só, sem que entendas
A dor que me faz sofrer
Meus sonhos belos e lânguidos,
Só queres minha sedução.


Ele a empurra para a cama. Amélia tenta contê-lo, mas ele a empurra com fúria e violência, fazendo-a cair no chão.
Deitado sobre ela, ofegante, o rosto colado ao dela, ele diz:

Não tenho mais tempo.
Sabes o que desejo
E que é meu direito
Não podes me negar


Não faça isso, Lino!

A porta da rua é serventia da casa!

Eu não posso mais, não posso
Amo outra pessoa
Não amo mais você...

martedì, gennaio 10, 2006

Aos Que Se Expõem

Existem quatro maneiras de se encarar a verdade. Há os que desconhecem a verdade, os que lutam para defender a verdade, os que conhecem a verdade e oprimem, e os que conhecem a verdade e se calam.

Os primeiros, por não saber da verdade, por não conhecer o caminho que gera a verdade, por não ter como entender a verdade e por não partilhar da verdade são VÍTIMAS e devem ser defendidos, pois podem ser manipulados.

Os segundos, os que conhecem a verdade e lutam por ela, sangram pela verdade, sofrem pela verdade, vivem pela verdade e morrem em verdade. Estes são escurraçados, destituídos, deslocados, silenciados, intimidados, intimados, torturados, enjeitados, apresados, amados, odiados, desejados, destruídos, escarrados e sempre têm um triste fim, mas vivem na glória da eternidade. Estes sobem com a cabeça erguida pelo cadafalso, cruz, fogueira, guilhotina e quando, no último momento, são novamente humilhados, erguem a voz e dizem a verdade, antes do fim. Estes são MÁRTIRES e devem ser seguidos pois são eles que vivenciam a verdade.

Os terceiros são os que têm o poder. Eles manipulam, prostituem, matam, oprimem, torturam, enjeitam, intimidam, intimam, prendem, escarram, julgam, destroem, vitimam, aleijam e convencem. Estes são os que se acham donos da verdade. Estes não discutem a verdade, não constoem a verdade, não vivem a verdade. Estes escondem a verdade pois sabem que não há argumento que refute a verdade. Estes humilham os que lutam pela verdade, os que estão ao redor dos que lutam pela verdade, os que desconhecem a verdade e prostituem os que a conhecem. Estes estão interessados no poder, não de transformar, mas de ditar o que é a verdade. Estes são os MENTIROSOS e devem ser silenciados.

Mas os piores são os últimos. Estes não torturam, não matam, não roubam, não julgam, não destoem, não vitimam, não aleijam, não escarram e não constroem a verdade. Estes não se mostram, não defendem os que defendem a verdade, nem ao menos defendem a si mesmos dos despaltérios dos que silenciam a verdade. Estes ficam parados olhando, silenciosos os fim dos mártires. Estes choram sozinhos, calados mais choram, pois sabem a verdade. Estes não se expõem pois sabem o que significa se expor conhecendo a verdade. Estes são coniventes com a ignorância dos primeiros, com o martírio dos segundos e com as mentiras dos terceiros. Estes são os responsáveis pelo sofrimento dos que conhecem e desconhecem a verdade. Estes são os responsáveis pelo poder dos que silenciam a verdade. A estes, minhas piores palavras, meus piores chingamentos, meus piores sentimentos. A estes os meus escarros, os meus peidos, os meus urros, as minhas fezes. A estes a única e verdadeira certeza: estes são NADA e nada continuarão a ser...

sabato, gennaio 07, 2006

Tardes Cariocas

Os pés desclaços cortam o chão
Os dois amantes dão as mãos
E vêem ao longe o entardecer da Guanabara

Quer da vida o som do violão
Na lapa arcos e acordeão
Prostituindo o som dos bons malandros

Os pés entristecidos e unidos
As bocas e os sonhos, as famílias
A vida é uma canção além da morte
Uma emoção que não se posta em blog

E vive, vive, vive e morre
E quebra devagarinho junto ao píer
Aos olhos de uma Ipanema sideral
Aos sonhos de um amor tão imortal!

Para Lady e Selph

giovedì, gennaio 05, 2006

Moral

O povo quer ter mais moral
O povo quer ser imoral
O povo quer ser imortal
O povo quer sair da geral
O povo não quer só carnaval
O povo quer ser general
O povo quer ser mais igual
Desigual pra ser mais Real

O povo quer ser indecente
O povo quer ter menos gente
O povo quer ter mais escola
O povo cansou-se de esmola
O povo quer ter mais moral...

martedì, gennaio 03, 2006

Inferno..

A greve acabou. As aulas começaram hoje. Que inferno. Detesto ir pra universidade. Prefiro mil vezes ficar em casa lendo meu Dostoiévski. Detesto gente medíocre que me obriga a ser medíocre também. Detesto ir pra universidade, assistir uma aula extremamente maçante com um professor desanimado, estressado e cansado só pra conseguir uma presença. Detesto ser taxado de reacionário quando digo que não auento mais essa porcariada de copiar matéria no quadro.

Agora eu entendo porque quase ninguém gosta de matemática. Os professores a universidade contribuem muito. Gente, o quê que custa dar a ilusão de que os alunos são pelo menos um pouquinho mais importantes do que os projetos de pesquisa desses "eminentes" professores? O quê que custa olhar nos nossos olhos e dizer "bom dia, vocês têm alguma dúvida?". Sério, tô chateadíssimo. Matemática é bela, é poética, estonteante, uma das mais profundas e verdadeiras formas de pensar. É um patrimônio cultural da humanidade que pra maioria das pessoas não passa de um conjunto de símbolos incompreensível...

Mas o problema não é só esse não. Tem os alunos também. Como a gente consegue achar tanta gente que não contribui em nada por metro quadrado? Aqueles filhos de burgueses sem luz que nunca tomaram uma decisão mais importante na vida do que o posto em que colocam gasolina nos seus carros. Essa gentinha mais ou menos que olha a gente de cima pra baixo e não tá nem aí pro que a gente pensa. Essa gentinha mais ou menos que queima índios, estupra criancinhas, atropela ciclistas em racha e se acha o centro do mundo. Essa gentinha mais ou menos que nunca é condenada pela justiça. Essa gentinha mais ou menos, fruto de dezenas de gerações de gentinha mais ou menos que governam esse mundo desde o primórdio dos tempos...

E, no meio desse caos, eu vejo o jardineiro, ali, sentado no chão, cultivando, adubando, podando, arrancando as ervas daninhas. Silente, compenetrado, cooperativo. Fumando seu cigarro, sozinho. Em quê ele pensa? Ele sim é a síntese da universidade, do conhecimento. Ele ali, analfabeto é o único que entende de verdade o que é a universidade. A universidade é o silêncio. O silêncio das sementes que germinam e viram árvores. O silêncio dos que desejam aniversários. O silêncio dos que amam. Silêncio dos jardineiros de Deus...